A reação antiescravidão: a posição intransigente que desencadeou uma tempestade transatlântica
A condenação teológica do “roubo de homens”
Muito antes da eclosão da Guerra Civil Americana, Charles Haddon Spurgeon já havia se estabelecido como um oponente feroz e intransigente da instituição da escravidão. Embora o Império Britânico tivesse abolido o comércio de escravos décadas antes do seu nascimento, Spurgeon dirigiu a sua indignação profética contra os Estados Unidos, onde a prática ainda era brutalmente aplicada e ferozmente defendida, até mesmo por alguns cristãos. Ele fundamentou as suas convicções anti-escravatura na realidade teológica de que todos os humanos são portadores da imagem de Deus, tornando a compra e venda de seres humanos uma violação profunda da lei divina e da dignidade humana.
Spurgeon não mediu palavras, descrevendo categoricamente a escravidão como “um crime de crimes, um pecado destruidor de almas e uma iniqüidade que clama por vingança”. Além disso, ele via o ato de possuir escravos como um equivalente moral ao assassinato. Em uma carta de 1860 para uma publicação de Boston, ele declarou a famosa declaração de seu "mais íntimo de alma" detesta a prática, afirmando que assim que receberia um assassino em sua comunidade da igreja, ele receberia um "ladrão de homens". Consequentemente, ele praticou uma estrita separação eclesiástica, recusando-se explicitamente a partilhar a mesa da comunhão com qualquer pessoa que possuísse escravos.
A centelha de John Brown e a fúria do sul
A tensão entre o pastor de Londres e o Sul dos Estados Unidos atingiu um ponto de ebulição após a execução do abolicionista americano John Brown em 1859. Brown tentou incitar uma revolta armada de escravos em Harpers Ferry, e embora os seus métodos violentos fossem altamente controversos, Spurgeon elogiou publicamente as suas intenções abrangentes anti-escravidão. Em sua correspondência de 1860, Spurgeon afirmou a retidão da causa de Brown, declarando que "John Brown é imortal nas memórias dos bons da Inglaterra, e em meu coração ele vive".
Este apoio a um abolicionista radical atingiu um ponto sensível nos estados pró-escravatura do Sul, desencadeando uma campanha sem precedentes de difamação mediática contra o pregador inglês. Jornais de toda a Confederação lançaram ataques ad hominem cruéis; a imprensa na Flórida rotulou Spurgeon de "comedor de carne, inchado, vaidoso, farisaico excessivamente justo, tagarela inglês", enquanto publicações na Virgínia e na Carolina do Sul o rejeitaram como um "menino gordo e crescido" e um "jovem vulgar" com um "ar de auto-satisfação".
As chamas da censura e das ameaças de morte
A indignação rapidamente passou das impressoras para as ruas. Antes desta controvérsia, os sermões publicados de Spurgeon eram imensamente populares na América, com seus editores vendendo centenas de milhares de cópias anualmente. No entanto, em resposta à sua postura abolicionista, os proprietários de escravos do Sul organizaram queimadas em massa de seus livros e folhetos. Fogueiras de sermões iluminavam pátios de prisões, plantações e livrarias em todo o sul dos Estados Unidos.
Até mesmo alguns editores americanos tentaram censurar o seu trabalho, eliminando discretamente os comentários anti-escravatura dos seus sermões, numa tentativa desesperada de manter as suas vendas lucrativas. Spurgeon, no entanto, rejeitou veementemente esta censura, prometendo que não pouparia a nação no futuro e que o "pecado clamoroso de um povo que rouba homens não passará despercebido". A reação cresceu tão severamente que Spurgeon perdeu o apoio dos Batistas do Sul, as vendas de seus sermões despencaram na região e ele recebeu dezenas de cartas insultuosas, incluindo ameaças explícitas de morte. Os jornais do Sul refletiram abertamente que se o "pregador hipócrita" alguma vez ousasse visitar a sua região, uma "corda robusta" rapidamente passaria pela sua "garganta eloquente".
O Julgamento Divino e o Triunfo da Emancipação
Apesar da enorme perda financeira resultante da queda nas vendas de livros e do fluxo contínuo de vitríolo transatlântico, Spurgeon nunca vacilou ou diluiu a sua posição. Quando a Guerra Civil Americana finalmente eclodiu, ele interpretou o conflito sangrento através de lentes teológicas. Num sermão proferido em 1862, ele atribuiu o imenso sofrimento dos estados do Sul ao julgamento divino de Deus sobre o "pecado nacional" da escravidão da América, que perpetuou a escravidão humana através de gerações.
Spurgeon acompanhou de perto o progresso da guerra e do movimento abolicionista, orando fervorosamente pela completa erradicação da instituição. Quando o presidente Abraham Lincoln emitiu a Proclamação de Emancipação, prometendo liberdade a milhões de indivíduos escravizados, Spurgeon regozijou-se no seu púlpito. Ele elogiou a libertação providencial, proclamando à sua congregação que quando a esperança de liberdade parecia distante, "foi Deus quem deu um Abraham Lincoln, que liderou a nação até que a 'Emancipação' ardesse em suas bandeiras". Através desta amarga controvérsia, Spurgeon demonstrou que o seu compromisso com o Evangelho exigia inerentemente uma oposição radical e inflexível ao mal sistémico, fornecendo um exemplo notável de luta contra a injustiça a partir de profundas convicções bíblicas.